Economia | crítica

Crítica

A economia é uma ciência?

Uma das características de qualquer ciência é o uso do método científico, com a exigência de estabelecer hipóteses e fazer predições que possam ser testadas com dados empíricos, onde os resultados são passíveis de serem demonstrados e repetidos, através da reprodução das mesmas condições da experiência.

Em economia são conduzidos algumas experiências em áreas aplicadas, em particular nos sub-campos da economia experimental e comportamento do consumidor, focados na experimentação usando sujeitos humanos; e no sub-campo da econometria, focada em testar hipóteses quando os dados estatísticos não são gerados em experimentos controlados. No entanto, à semelhança das outras ciências sociais, pode ser difícil os economistas conduzirem certos experimentos formais devido a questões práticas e morais envolvendo sujeitos humanos.

O estatuto das ciências sociais como ciências empíricas, ou mesmo ciências, tem sido objeto de discussão desde o século XX. Alguns filósofos e cientistas, notavelmente Karl Popper, afirmam que nenhuma hipótese, proposição ou teoria empírica podem ser considerada científica se nenhuma observação puder ser feita que a possa contradizer, insistindo numa falseabilidade estrita (ver positivismo).

Os críticos alegam que a economia não pode atingir sempre a falseabilidade popperiana, mas os economistas apontam os muitos exemplos de experimentos controlados que fazem exatamente isso, apesar de conduzidos em laboratório.[115][116][117]

Enquanto a economia tem produzido teorias que se correlacionam com os comportamentos observados na sociedade, a economia não gera leis naturais ou constantes universais devido à sua dependência de argumentos não-físicos. Isso tem levado alguns críticos a argumentar que a economia não é uma ciência.[118][119] Em geral, os economistas respondem que, enquanto esse aspecto apresenta sérias dificuldades, eles de fato testam as suas hipóteses usando métodos estatísticos como a econometria usando dados gerados no mundo real.[120] O campo da economia experimental tem feito esforços para testar pelo menos algumas das predições de teorias econômicas em ambientes simulados em laboratório – um esforço que rendeu a Vernon Smith e Daniel Kahneman o Prêmio Nobel em Economia em 2002.

Apesar de que a maneira convencional de conectar um modelo econômico com o mundo é através da análise econométrica, a professora e economista Deirdre McCloskey, através da crítica McCloskey, cita muitos exemplos em que professores de econometria usaram os mesmos dados para tanto provar e negar a aplicabilidade das conclusões de um modelo. Ela argumenta que muito dos esforços dispendidos por economistas em equações analíticas é essencialmente esforço desperdiçado (posição seguida por economistas brasileiros como Pérsio Arida).Os econometristas respondem que essa é uma objeção a qualquer ciência, não apenas à economia. Críticos de McCloskey replicam dizendo que, entre outras coisas, ela ignora exemplos em que a análise econômica é conclusiva e que as suas afirmações são ilógicas.[121] Alguns economistas, como ganhador do Prêmio Nobel Friedrich Hayek, são da opinião que a tendência para a economia imitar os métodos e procedimentos das ciências físicas leva a resultados não-científicos, por se tratar da aplicação mecânica e não-crítica de hábitos de pensamento vindos de áreas sem as especificidades das ciências sociais.[122] A área econômica também é conhecida por ser excessivamente abstrata e se fechar para o mundo real.[123]

A economia já foi apelidada de "ciência sombria" (The dismal science no original em inglês), de forma humorística e até mesmo depreciativa. A expressão é atribuída ao historiador vitoriano Thomas Carlyle, no século XIX. Afirma-se que Carlyle apelidou a economia de "ciência sombria" como resposta aos escritos do reverendo Thomas Robert Malthus do final do século XVIII, que sinistramente previa a fome como resultado do crescimento projetado da população exceder o taxa de aumento da oferta de alimentos. No entanto, a expressão foi efetivamente usada por Carlyle no contexto de um debate com John Stuart Mill sobre a escravidão, no qual Carlyle argumentava a favor e Mill contra.

Também existe controvérsia acerca da relação entre a economia e a política.

Alguns economistas, como John Stuart Mill ou Leon Walras, defenderam que a produção de riqueza não deveria estar ligada à sua distribuição. A primeira está no campo da "economia aplicada" enquanto a segunda pertence à "economia social" e é em grande parte uma questão de poder e política.[124]

Crítica aos pressupostos usados

Certos modelos usados por economistas são criticados, até por outros economistas, pela sua dependência de pressupostos irrealistas, não-observáveis ou não-verificáveis. Uma resposta a essas críticas é que os pressupostos irrealistas resultam de abstrações que simplificam detalhes pouco importantes, e que tais abstrações são necessárias em um mundo real complexo. Isso significa que os pressupostos simplificadores, ao invés de afetar o valor epistêmico da economia, são essenciais para a formação do conhecimento em economia. Os economistas são também criticados por ignorar o papel da dívida das sociedades.[125] A classe é considerada fechada em relação ao mundo real,[126] e de se achar acima da mesma.[127] A profissão é tida também como uma religião.[128][129][130]

Um estudo chamou essa explicação de "defesa abstracionista" e concluiu que essa defesa não invalida a crítica aos pressupostos irrealistas.[131] No entanto não existe um consenso sobre esta questão, e diferentes campos da economia chegaram a conclusões suportadas em evidências empíricas com diferentes graus intensidade.

Os conceitos que costumam ser considerados como "axiomas" são simplificações da realidade mas que se espera serem consistentes com a observação empírica.

Alguns exemplos crenças ou axioma compartilhados por muitos economistas do mainstream são:

  • Racionalidade = Interesse-próprio: Supõe que a "racionalidade" implica "interesse-próprio" e vice-versa. No entanto isso não descarta o altruísmo. O altruísmo pode ser visto como um caso em que o interesse-próprio de um indivíduo inclui fazer o bem aos outros. Outros pontos de vista afirmam que essa afirmação não deixa muito espaço para o altruísmo, e na verdade o desencoraja, um tanto como um dilema do prisioneiro global, i.e.: Se pessoas "racionais" não são altruístas, então eu também não deveria ser, ad infinitum. No entanto, esse "axioma" tem, desde então, sido sujeitado a vários experimentos e concluiu-se que mesmo o altruísmo poderia ser modelado como uma forma de interesse-próprio, quando todas as pressões sociais são consideradas.[115][116]
  • Bem-estar = Consumo: Supõe que os seres humanos são felizes se e quando consomem. Em conjunto com outra sua posição aceite, da insaciabilidade do consumo, implica que os seres humanos nunca podem permanecer felizes. Apesar de a versão original ser simplificada demais, observações empíricas mais recentes confirmaram uma relação entre o sentimento de bem-estar e determinados fatores como a renda.[132]
  • Atomismo: Supõe que seres humanos são atomistas, isto é, as suas preferências são independentes. Essa é outra simplificação tanto da economia quanto das crenças específicas dos economistas. A modelação baseada nos agentes e a economia experimental produziram resultados que são consistentes com essa teoria.

A questão dos pressupostos é delicada. Por um lado eles permitem que os problemas sejam "tratáveis". Por outro não podem ser demasiado simplificados sob pena de não conseguir retratar eficazmente o comportamento dos agentes económicos.

Crítica das contradições

A economia é um campo de estudo com várias escolas e correntes de pensamento. Como resultado, há uma distribuição significativa de opiniões, abordagens e teorias. Algumas dessas chegam a conclusões opostas ou, devido à diferenças nos pressupostos, se contradizem.[133][134][135]

Economia e política

Alguns economistas, como John Stuart Mill ou Leon Walras, defenderam a ideia de que a produção de riqueza não deveria ser limitada à sua distribuição. A produção estaria mais no campo da "economia aplicada" enquanto a distribuição na "economia social" e seria em grande medida uma questão política.[124] éia A economia per se, como ciência social, não se baseia em atos políticos de qualquer governo ou outra organização política, no entanto, muitos políticos ou indivíduos em posições de mando que podem influenciar as vidas de outras pessoas são conhecidas por usarem arbitrariamente uma infinidade de conceitos da teoria econômica e retórica como veículos para legitimar agendas e sistemas de valor, e não limitam suas observações aos assuntos relevantes para as suas responsabilidades.[136] A íntima relação de teoria e prática econômica com a política[137] é um foco de disputas que pode nublar ou distorcer as ideias originais mais despretenciosas da economia, e é frequentemente confundida com agendas sociais específicas e sistemas de valor.[138]

Questões como a independência do banco central, políticas do banco central e retórica nos discursos de presidentes do banco central sobre as premissas das políticas macroeconômicas[139] (monetária e fiscal) dos Estados, são focos de dissenso e criticismo.[140][141][142][143]

Economia e ideologias

Por exemplo, é possível associar a promoção da democracia por parte dos EUA pela força no século XXI, o trabalho de Karl Marx no século XIX ou o embate entre capitalismo e comunismo durante a guerra fria como questões de economia. Apesar da economia não fazer quaisquer juízos de valor, essa pode ser uma das razões pelas quais a economia pode ser vista como não baseada na observação empírica e no teste de hipóteses. Como uma ciência social, a economia tenta se focar nas consequências e eficiências observáveis de diferentes sistemas econômicos sem necessariamente fazer nenhum juízo de valor a respeito de tais sistemas - por exemplo, ao examinar a economia de sistemas autoritários, igualitários, ou mesmo um sistema de castas sem fazer quaisquer julgamentos a respeito da moralidade de qualquer um deles.

Ética e economia

A relação entre ética e economia é complexa. Muitos economistas consideram escolhas normativas e juízos de valor - como o que seria preciso ou necessário, ou o que seria melhor para a sociedade - questões pessoais ou políticas fora do âmbito da economia. Uma vez que um governo ou economia estabelece um conjunto de objetivos, a economia pode fornecer insight sobre a melhor forma de se atingi-los.

Outros enxergam a influência das ideias econômicas, como aquelas que permeiam o capitalismo moderno, promovendo um determinado sistema de valores com os quais eles podem ou não concordar. (Veja, por exemplo, consumismo e Dia do Compre Nada.) De acordo com alguns pensadores, uma teoria econômica também é, ou implica, uma teoria de raciocínio moral.[144]

A premissa do consumo responsável é que o consumidor deve levar em consideração preocupações éticas e ambientais, além das tradicionais considerações econômicas e financeiras, quando tomar decisões de compra.

Por outro lado, a alocação racional dos recursos limitados em prol do bem e segurança públicos também é uma área da economia. Alguns tem apontado que não estudar as melhores formas de alocar recursos para metas como saúde e segurança, o meio ambiente, justiça, ou assistência a desastres seria uma forma de ignorância voluntária que resultaria em menos bem-estar ou mesmo em mais sofrimento.[145] Nesse sentido, não seria ético ignorar o lado econômico de tais questões.

Efeito na sociedade

Alguns poderiam dizer que estruturas de mercado e outras formas de distribuição de bens escassos, sugeridos pela economia, afetam não apenas seus "desejos e vontades" mas também "necessidades" e "hábitos". Muito da chamada "escolha" econômica é considerada involuntária, certamente dada por condicionamento social porque as pessoas passaram a esperar uma certa qualidade de vida. Isso leva a uma das mais debatidas áreas na política econômica hoje, a saber, o efeito e eficácia das políticas de bem-estar. Os libertários enxergam isso como uma falha com respeito ao raciocínio econômico - eles argumentam que a redistribuição de riqueza é moral e economicamente errada. Já os socialistas vêem aí uma falha da economia em respeitar a sociedade, argumentando que as disparidades de renda não deveriam ter sido permitidas para começar. Essa controvérsia levou à economia do trabalho no séc XIX e na economia do bem-estar no século XX antes de serem incluídas na teoria do desenvolvimento humano.

O antigo nome da economia, economia política, ainda é frequentemente usado em vez de "economia", especialmente por algumas escolas como a marxista. O uso dessa expressão normalmente sinaliza um desacordo fundamental com a terminologia ou paradigma da economia de mercado. A economia política traz explicitamente considerações políticas e sociais em sua análise e é, portanto, amplamente normativa.

A economia marxista geralmente nega o trade-off de tempo por dinheiro. No ponto de vista marxista, é o trabalho que define o valor das mercadorias. As relações de troca dependem de que haja trabalho prévio para a determinação de preços. Os meios de produção são portanto a base compreender a alocação de recursos entre as classes, já que é nesta esfera que a riqueza é produzida. A escassez de qualquer recurso físico em particular é subsidiário à questão central das relações de poder atrelada ao monopólio dos meios de produção