Portugueses

Portugueses
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População total

~ 42 milhões[1]

Regiões com população significativa
Portugal Portugal:    10 665 000[nota 1]
 Brasil5 milhões (portugueses e brasileiros filhos e netos de portugueses) [nota 2]
 Estados Unidos1 426 121 (inclui americanos de ascendência portuguesa, independentemente do grau) [3]
 França1 720 000[4] (inclui franceses de ascendência portuguesa, independentemente do grau, Também inclui portugueses nascidos em Portugal.) [5]
 Canadá550 000[6]
 África do Sul400 000[7]
 Venezuela334 775[8]
 Suíça294 925[5][9]
 Alemanha171 933[5]
 Reino Unido140 000[10][11]
 Espanha137 264[9]
 China128 138[5]
 Macau126 238[5]
 Angola115 595[5]
 Luxemburgo103 009[5][12]
 Bélgica53 977[5]
 Austrália50 157[5]
 Países Baixos46 517[5]
 Índia33 580[5]
 Moçambique23 000[13]
 Andorra12 333[5]
Resto da América24 776
Resto da África8 965
Línguas
Português
Religiões
81% Católicos, 3,9% outros cristãos 0,6% outras religiões (entre elas Judaísmo, Islamismo e Hinduísmo), 8,3% desconhece-se 6,85% nenhuma religião[14]
Grupos étnicos relacionados
Galegos e outros espanhóis, franceses, italianos e outros povos da Europa Ocidental, bem como com os povos de língua oficial portuguesa.

Portugueses são um povo e grupo étnico da Península Ibérica, no sudoeste da Europa. O português é a sua língua, e o catolicismo a religião nominalmente predominante.

Geneticamente, os dados apontam para uma fraca diferenciação interna dos portugueses, cuja base é essencialmente continental europeia de origem paleolítica. A base genética da população do território português mantém-se aproximadamente a mesma nos últimos quarenta milénios, apesar da presença de inúmeros povos no território português que também contribuíram para o património genético dos seus habitantes.

Culturalmente, as presenças celta, romana, germânica e moura foram significativas, tal como foram decisivas a vizinhança e as relações com os restantes países europeus e as relações coloniais com África, o Brasil e o Índico a partir dos séculos XV e XVI (ver Cultura de Portugal).

No período moderno, os processos migratórios mais relevantes em Portugal deram-se nas últimas três décadas do século XX e até ao presente, com a notável exceção da entrada de grupos ciganos ainda no século XV. Após 1974, o país torna-se um recetor significativo de populações migrantes, quer como resultado direto ou indireto da descolonização de África, quer como resultado da participação de Portugal na União Europeia. Portugal tem vindo a receber em número crescente populações migrantes oriundas do Brasil (ex-colónia portuguesa), África (com maior relevância das ex-colónias), Ucrânia (e países do Leste Europeu em geral), além duma multiplicidade demograficamente menos significativa doutras origens, entre as quais avoluma a chinesa.

Portugal foi tradicionalmente uma terra de emigração, desde o período da expansão imperial e colonial, passando, por exemplo, pela emigração económica para o Brasil no século XIX e pela emigração económica, a partir de 1960, para alguns países da Europa Ocidental. Além dos cerca de dez milhões de portugueses residentes em Portugal, estima-se existirem cerca de cinco milhões mais espalhados pelo mundo (incluindo os lusodescendentes recentes) num total de cerca de quinze milhões de portugueses.

As origens

Os portugueses são uma população sul europeia, predominantemente oeste-mediterrânica e atlântico europeia. Foram muitos os processos migratórios que contribuíram para a formação do povo português, mas o grande contributo parece ser o mais antigo, ou seja, a população portuguesa, tal como as restantes populações ibéricas e algumas das outras populações da Europa Ocidental (particularmente costeira ou insular), são maioritariamente resultantes de processos de povoamento paleolíticos, aquando da chegada e povoamento da Europa por humanos modernos (progressivamente substituindo as populações de Neandertais, que viriam a extinguir-se precisamente no oeste e sul da Península Ibérica). De facto, cerca de 60%, em média, das linhagens genéticas em Portugal apresentam marcadores que as caracterizam como de origem paleolítica, nomeadamente o Haplogrupo R1b (Y-cromossomático)[15] e o Haplogrupo H (ADN mitocondrial).[16][17]

Desenvolvimentos recentes das metodologias para definição das estruturas populacionais levaram a um estudo de 2006[18] que concluiu verificar-se uma clara e consistente divisão entre grupos populacionais sul e norte europeus. Um estudo adicional de 2007 posiciona as populações ibéricas algo afastadas de outros grupos continentais, incluindo outros grupos sul-europeus, dando fundamento à hipótese que a Península Ibérica alberga as populações com a origem mais antiga de toda a Europa. Neste estudo, a mais importante diferenciação genética europeia atravessa o continente de norte para sudeste, acompanhada de um outro eixo de diferenciação este-oeste (diferenciando o sul do norte), ao mesmo tempo que se verificou, apesar destas linhas de demarcação relativa, a homogeneidade e proximidade genética de todas as populações europeias.[19]

A base paleolítica das modernas populações ibéricas

Distribuição do haplogrupo R1b (vermelho)

Entre o 45.º e o 40.º milénios antes do presente, durante o Paleolítico Superior e a última Idade Glaciar, o primeiro povoamento da Europa por seres humanos modernos ocorreu (com o chamado Homem de Cro-Magnon). Estes eram caçadores-recoletores nómadas originários das estepes da Ásia Central. Quando a última glaciação atingiu o seu máximo, entre o 35.° e o 30.º milénio antes do presente, estes humanos modernos refugiaram-se no sul da Europa, nomeadamente na Península Ibérica, tendo aí entrado por via do sul do atual território francês, através dos Pirenéus. Nos milénios que se seguiram, acompanhando a progressiva retração e extinção das populações Neandertais, as culturas humanas modernas floresceram na Península Ibérica, produzindo períodos como o Aurignaciano, Gravetiense, Solutrense e Magdaleniano, alguns deles caracterizados por formas complexas de arte pré-histórica e que produziram expressões artísticas tão monumentais como o Vale do Côa (em Portugal).

Estas populações paleolíticas, a grande base démica da presente população portuguesa, eram relativamente homogéneas geneticamente (caracterizadas pela mutação M173 no Cromossoma Y), e viriam a desenvolver a mutação M343, originando o Haplogrupo R1b, dominante ainda hoje entre os Portugueses e outros europeus ocidentais como Britânicos, Franceses, Espanhóis e etc.

Refúgios populacionais europeus durante o último máximo glaciar, cerca de 20 mil anos atrás

Anteriores análises do Cromossoma Y e do ADN Mitocondrial[20] tinham já constatado a suma importância do legado paleolítico nas populações ibéricas. Apesar de essas metodologias não propiciarem fortes inferências sobres as estruturas genéticas populacionais, são bastante úteis na reconstrução das rotas migratórias das populações europeias. Quer o haplogrupo Y-cromossomático R1b, quer o haplogrupo mitocondrial H atingem frequências de 60% em quase toda a Península Ibérica (chegando a 90% no País Basco).[21] Tal demonstra o laço ancestral entre a Península Ibérica e o resto da Europa Ocidental, em particular a Europa atlântica, que partilham elevadas frequências destes marcadores genéticos. Estas análises dão forte fundamento à hipótese segundo a qual populações fundadoras do norte ibérico colonizaram o resto da Europa Ocidental no fim da última glaciação.[22] De facto, um dos maiores componentes do genoma europeu parece derivar de antepassados cujas características genéticas eram semelhantes à dos Bascos modernos, sendo que este componente é, por razões de proximidade e concordância geográfica, mais elevado no território ibérico.[23][24]

A conexão atlântica

A Europa Atlântica

Geneticistas como Barry Cunliffe,[25] Bryan Sykes,[26] Stephen Oppenheimer[27] e Spencer Wells[28] têm avançado com a hipótese, fundamentada nestes e noutros estudos genéticos, bem como em dados arqueológicos, de que as populações ibéricas devem ser consideradas como a origem principal dos povos que repovoaram a Europa atlântica no período pós-glacial, particularmente durante o Paleolítico e o Mesolítico, mas também no Neolítico.

De facto, esta origem genética mantém-se predominante ainda hoje na região atlântica europeia, desde a Península Ibérica, passando pela França, as Ilhas Britânicas (onde é particularmente marcada, nomeadamente nas populações do País de Gales e da Irlanda) e atingindo partes da Península Escandináva.[22]

Dentro dos marcadores genéticos que evidenciam tal realidade démica, tais como o importante Haplogrupo Y-cromossomático R1b, existem haplotipos modais, sendo um dos mais caracterizados o Haplotipo Modal Atlântico (AMH),[29] que atinge as frequências mais elevadas na Península Ibérica, atingindo os 37% em Portugal.

Estes autores afirmam que, particularmente no Mesolítico (período de transição entre o Paleolítico e o Neolítico, com início há cerca de 10 000 a.C.), a Oscilação de Allerød, uma desglaciação que diminuiu as condições árduas da última Glaciação, permitiu que as populações ibéricas (descendentes do Homem de Cro-Magnon) migrassem e recolonizassem toda a Europa Ocidental. Este foi o período da cultura Aziliense no sul de França e norte da Península Ibérica (até a foz do rio Douro), bem como da cultura dos Concheiros de Muge, no Vale do Tejo.

O contributo neolítico

As contribuições populacionais e culturais neolíticas para o conjunto ibérico também não podem ser ignoradas, embora tenham uma importância menor quando comparadas com o peso da origem paleolítica. Os processos démicos e culturais do Neolítico estão associados à expansão da agricultura a partir do Médio Oriente.[24][30][31][32][33]

Estudos genéticos recentes apoiam a ideia de um importante elemento de origem neolítica no conjunto do genoma europeu, dando apoio ao modelo de difusão démica[34] a partir do Médio Oriente. Este componente genético neolítico encontra-se igualmente em níveis significativos nas populações ibéricas, embora em níveis marcadamente inferiores ao verificados noutras regiões europeias, quer as mais a leste (e com maior proximidade geográfica com o ponto de origem médio-oriental, como a Península Balcânica), quer mais a norte. De facto, as grandes diferenciações genéticas europeias atravessam o continente numa distribuição clinal de orientação sudeste/noroeste, assim ligando mais as populações mais ocidentais da Europa (incluindo a Península Ibérica) através da origem paleolítica comum (aliás, de origem ibérica), e as populações do leste, particularmente do sudeste, através de uma origem neolítica comum[24](repare-se, no entanto, que um dos outros grandes componentes genéticos do Leste europeu, marcado pelo Haplogrupo R1a, tem origem na região da Ucrânia moderna,[35] além de outros com menor impacto démico com origem através do norte da Ásia, especificamente do norte da Rússia). No entanto, o modelo de difusão démica permanece algo controverso, já que as provas que o sustentam, sendo Y-cromossomáticas, logo apontando para movimentos populacionais masculinos, não encontram correlato nos dados conhecidos de ADN mitocondrial, ou seja, dos movimentos migratórios femininos. Tal faz suspeitar que os processos neolíticos de expansão a partir do Médio Oriente tenham sido não só essencialmente masculinos, mas mais um processo de expansão cultural do que populacional.

Áreas de expansão da cultura megalítica europeia

De qualquer forma, o Neolítico trouxe mudanças à paisagem humana da Península Ibérica a partir de há 7 000 a.C., com o desenvolvimento da agricultura e o início da Cultura Megalítica Europeia. Esta viria a espalhar-se por grande parte da Europa Ocidental e parte do Norte de África. Um dos centros mais antigos desta cultura monumental foi Portugal. Este é igualmente o período em que se assiste à expansão por via marítima, a partir do leste mediterrânico, da Cultura da Cerâmica Cardial, associada igualmente a processos migratórios marcados pela presença do Haplotipo E3b, originário do Corno de África e disperso pelo Mediterrâneo oriental durante o Mesolítico.[15][36][37][38][39][40][41]

Note-se que, com algumas excepções localizadas, os dados arqueológicos demonstram que este processo foi essencialmente de aculturação das populações europeias, mais do que de migração em massa. Mesmo assim, a Cultura da Cerâmica Cardial terá tido um papel de relevo no lento desenvolvimento das primeiras culturas Neolíticas das regiões Atlânticas, embora com maior impacto directo nas zonas do leste ibérico (apresenta uma distribuição basicamente mediterrânica, particularmente na Catalunha, Valência, Vale do Ebro e Baleares). De facto, os monumentos megalíticos europeus estão frequentemente acompanhados de restos arqueológicos de cerâmica e outros artefactos provenientes desta cultura.

A Idade do Cobre

A Idade do Cobre, ou Calcolítico, trouxe igualmente mudanças à paisagem humana e cultural da Península Ibérica e nomeadamente ao território português. Esta fase caracteriza-se pelo início da metalurgia, pelo aumento da complexidade e estratificação sociais, bem como, no caso ibérico, pelo aparecimento das primeiras civilizações e de extensas redes de troca e comércio que vão do Norte de África até ao Mar Báltico, com relevo para as Ilhas Britânicas.[42]

A data convencional para o começo do Calcolítico ibérico é de cerca de 3 000 a.C.. Nos séculos que se seguiram, particularmente no sul da Península, bens metálicos, muitas vezes decorativos e rituais, tornaram-se frequentemente comuns. Este é igualmente o período de grande expansão do Megalitismo, com as práticas funerárias associadas, que se expande ao longo das regiões Atlânticas e pelo sul da Península (além de pelo resto da Europa atlântica). Em contraste, a maioria das regiões do interior peninsular e mediterrâneas permanecem refractárias a este fenómenos. Outro fenómeno do início da Idade do Cobre é o desenvolvimento de monumentos funerários de tipo tolo e cavernas artificiais, que se encontram no sul ibérico, desde o Estuário do Tejo até Almeria (em Espanha) e ao sudeste francês. Todos estes fenómenos se inscrevem na que foi a grande linha de demarcação cultural e démica (em menor grau) ibérica em geral e portuguesa em particular - mais mediterrânica a sul e leste, mais europeia continental a norte e oeste.

Por volta de século XXVII a.C., começaram a aparecer comunidades urbanas, mais uma vez mais marcadamente no sul do território. As mais importantes de toda a Península Ibérica foram a de Los Millares (no sudeste espanhol) e a de Zambujal (pertencendo à cultura de Vila Nova de São Pedro, em Portugal), podendo já ser chamadas «civilizações», ainda que lhes falte a componente escrita.

Extensão da Cultura do Vaso Campaniforme

A partir de 2 150 a.C. dá-se uma importante transformação cultural e, em parte, populacional na Península Ibérica calcolítica, com o aparecimento da Cultura do Vaso Campaniforme, de origem portuguesa em paralelo com o megalitismo. Esta cultura ao difundir-se por toda a Europa demonstra tendências de regionalização, com diferentes estilos produzidos em várias regiões, sendo os mais importantes o tipo de Palmela em Portugal e os tipos Continental e Almeriano em Espanha.

A Idade do Bronze

Idade do Bronze na Península Ibérica

A Idade do Bronze, que se desenvolve a partir de 1 800 a.C., acentuará os processos populacionais e culturais verificados na Idade do Cobre: aumento da urbanização a sul e leste, aumento das influências centro-europeias a norte e oeste. De facto, é por volta do I milénio a.C. que se verificam as primeiras migrações para a Península Ibérica de populações claramente de língua Indo-Europeia (associadas à expansão da Cultura dos Campos de Urnas, de carácter proto-celta), e que viriam a contribuir para a Idade do bronze atlântica (cujas principais regiões parecem ter sido Portugal, a Andaluzia (Tartesso?), a Galiza e a Grã-Bretanha). Estas migrações foram mais tarde, nos séculos VII a V a.C. (já na Idade do Ferro), seguidas por outras que podem já ser claramente identificadas como celtas. É neste contexto de celtização que, a partir do século VI a.C. se deu o desenvolvimento da Cultura castreja numa ampla zona do noroeste da Península Ibérica, entre os rios Douro e Návia e a Oeste do Maciço Galaico, tendo desenvolvido um tipo muito peculiar de assentamentos, chamados castros, diferentes de outras áreas da Península.[43][44]

Na Idade do Bronze tardia, desenvolvem-se igualmente as primeiras civilizações urbanas com escrita, tais como a de Tartesso (na área da moderna Andaluzia ocidental), influenciada pela expansão comercial e cultural fenícia (e que, com base no alfabeto fenício, viria a desenvolver o primeiro sistema de escrita na Península Ibérica; o tartéssico constitui um isolado linguístico, tal como o ibero da Idade do Ferro, com o qual não tem nenhuma relação), e com forte impacto na região do sul de Portugal, na área que, posteriormente, veio a ser identificada como sendo habitada pelos Cónios ou Cinetes do Algarve e Baixo Alentejo (eventualmente com presença até ao Alto Alentejo e à Estremadura espanhola).

A Idade do Ferro

Os dois principais componentes dos desenvolvimentos populacionais do território português durante a Idade do Ferro foram a migração de populações celtas e o desenvolvimento da Civilização Tartéssica. Estes dois processos acentuaram ainda mais as características da paisagem cultural do Portugal de então - mediterrânico a sul do rio Tejo e continental a norte.[45]

Os celtas

Expansão celta na Europa

As migrações de populações protoceltas e celtas, no seguimento da anterior expansão da Cultura dos Campos de Urnas, acentuam vincadamente o carácter indo-europeu do panorama humano na Península Ibérica, e muito particularmente o português. Trata-se, por um lado, do forte substrato protocelta (às vezes chamado pré-celta) que dará origem aos lusitanos e aos seus vizinhos vetões (no espaço dos quais se veio a desenvolver a Cultura dos berrões),[46][47][48][49] na área onde se identifica a cultura castreja e que parece estar também igualmente presente nos galaicos e ástures (embora estes últimos possam ter igualmente uma forte componente aquitânica vinda dos também misturados Cântabros). Por outro lado, trata-se da clara «celtização» da metade noroeste da Península através dos processos de expansão démica e cultural a partir do centro celtibero, que assim produz populações celtas distintas das celtiberas e que podem ser designadas como hispano-celtas (ou celtas da Península Ibérica)[50]

Desde os finais do século VIII a.C., a Cultura dos Campos de Urnas incorporou elementos da cultura celta de Hallstatt, num processo lento que esteve muito possivelmente ligado à chegada de contingentes populacionais com origem na Europa Central. De notar que, com a expansão a Leste (na zona norte da moderna Catalunha) da cultura ibera (desde 600 a.C., é substituída a zona da Cultura do Campo de Urnas fortemente "celtizada" do nordeste pirenaico), a ligação entre os celtiberos e os seus congéneres do resto da Europa corta-se. Esta separação física entre celtas da Península Ibérica e celtas continentais explica por que motivo os primeiros nunca vieram a receber as influências do período cultural de La Tène (que caracterizará os celtas "clássicos"), aí incluindo o druidismo.

A civilização tartéssica

Tartesso e a sua área de influência

A Civilização Tartéssica, com as suas origens no período final da Idade do Bronze, é uma cultura orientalizante autóctone com inícios no século VIII a.C., modificada pela influência crescente de elementos fenícios. A sua área central foi o oeste da Andaluzia, mas cedo expandiu a sua área de influência até à costa leste da Península e, no que a Portugal diz respeito, até ao estuário do Tejo, com particular incidência na zona do Algarve. A influência tartéssica será duradoura no sul de Portugal até ser substituída pela forte presença celta, resultado de processos migratórios dos Célticos, que assim «celtizaram» esta zona, bem como as populações, ligadas a Tartesso, dos turdetanos e dos cónios. Estes últimos legaram-nos o mais amplo património de escrita tartéssica (na variante chamada escrita do Sudoeste) e, mesmo depois de celtizados, permaneceriam como população autónoma até à chegada dos romanos, com quem se aliaram contra, nomeadamente, os lusitanos (que acabaram por destruir a sua principal cidade - Conistorgis).

Mapa das rotas de expansão Fenícias

De notar que o florescimento tartéssico se dá no âmbito da expansão fenícia, quando esta está em confronto com a expansão e colonização grega do ocidente mediterrânico. Se a influência fenícia foi central no desenvolvimento de Tartesso, a influência grega parece ter sido igualmente central no desenvolvimento um pouco posterior da civilização ibera (igualmente uma língua isolada não indo-europeia e não aparentada com o tartéssico), no leste e sul peninsular (Catalunha, Valência, Múrcia e leste da Andaluzia). Repare-se, portanto, que nunca existiram, contrariamente ao que muitas vezes se afirma, populações iberas em parte alguma do território português.[51] Da mesma forma, é de notar que não há indício algum de colonização fenícia em Portugal (com a excepção da feitoria fenícia de Abul na margem direita do rio Sado, concelho de Alcácer do Sal, distrito de Setúbal no Sul do país), assim caindo por terra os mitos da fundação fenícia de Lisboa, para não falar da ainda mais inverosímil fundação grega. É claro que excursões comerciais fenícias devem ter percorrido as costas portuguesas (de facto, pensa-se que até às Ilhas Britânicas), e que a sua influência directa ou, mais provavelmente, indirecta via Tartesso, tenha tido forte impacto cultural.

É de notar, no entanto, que apesar da língua tartéssica ser em regra tratado como não classificada, dada a escassez de textos e falta de óbvias conexões com outras línguas - o que permanece como a visão dominante,[52][53] vários autores apresentam-na como céltica ou pelo menos fortemente celtizada. Correa,[54]Untermann[55][56] e particularmente Koch[57][58] propõem etimologias celtas para nomes tartéssicos, ou mesmo que o tartéssico era uma língua celta. Koch defende mesmo que as línguas celtas nascem no contexto cultural da idade do bronze atlântica.

Antes dos romanos

Mapa Etno-Linguístico da Península Ibérica por volta de 300 a.C.

Por volta do século IV a.C., os Célticos, uma nova vaga de migração celta, penetram no território português e assentam no Alentejo com penetração até ao Algarve. Os Túrdulos e os Turdetanos, provavelmente de origem tartéssica embora altamente celtizados, estabelecem-se na área do Guadiana. Uma série de cidades do Algarve, tais como Conistorgis, Balsa (Tavira), Besuris (Castro Marim), Ossónoba (Faro) e Cilpes (Silves), são habitadas pelos Cónios, que se misturam progressivamente com os Célticos.[59][60] Os lusitanos (que, na hipótese mais moderna, se consideram protoceltas) habitam a área entre o Douro e o Tejo e começam progressivamente a penetrar no Alto Alentejo. As populações galaicas, de substrato protocelta, tornam-se progressivamente populações de língua celta.

Por volta de pouco antes de 200 a.C., mesmo antes do início da Segunda Guerra Púnica entre Roma e Cartago, o panorama populacional do território português era um que, apesar dos profundos processos migratórios e de mudança cultural, mantinha o essencial da base démica de origem paleolítica, tal como hoje em dia. Partindo dessa base paleolítica de origem continental europeia, bem como dos contributos neolíticos de origem mediterrânica, as populações de então eram etno-linguisticamente o resultado das migrações indo-europeias mescladas com o substrato não indo-europeu mais antigo.

Neste sentido, os povos que habitavam o ocidente peninsular antes da chegada dos Romanos eram os Galaicos (a norte do Douro), os Lusitanos (entre o Douro e o Tejo), os Célticos (entre o Tejo e o Algarve) e os Cónios ou Cinetes (no Algarve), entre outros povos ibéricos pré-romanos com menor expressão, tais como os Brácaros, Coelernos, Equesos, Gróvios, Interâmicos, Leunos, Luancos, Límicos, Narbasos, Nemetatos, Pésures, Quaquernos, Seurbos, Tamaganos, Taporos, Túrdulos, Túrdulos velhos, Túrdulos opidanos, Turodos e Zelas.

A romanização

Império Cartaginês imediatamente antes da Primeira Guerra Púnica em 264 a.C.

Em 219 a.C., as primeiras legiões romanas invadem a Península Ibérica (que viriam a designar por Hispânia) no âmbito da Segunda Guerra Púnica contra Cartago (herdeiros dos fenícios na zona de influência a sul), num processo de conquista que só será terminado durante o reinado do Imperador Augusto em 19 a.C.. Os Romanos, com forte presença militar na Península (não só devido à guerra com Cartago, mas posteriormente em processos de conquista territorial das populações ibéricas, bem como em lutas intestinas entre romanos, tais como a revolta de Sertório entre 83-72 a.C., ou a guerra civil de César entre 49-45 a.C.), acabaram por ser a mais importante influência cultural nas populações que viriam a constituir a nação portuguesa. Tal influência deveu-se ao legado maior do latim (nomeadamente o latim vulgar) como, inicialmente, língua franca de comunicação e, posteriormente, língua universal (extinguindo todas as línguas pré-Romanas que se falavam na Península, com a conhecida excepção do Basco, provavelmente originário do Aquitânio), que originou a língua portuguesa. Outra influência que se pode considerar romana, ainda que de origem não romana e numa fase muito posterior (já no século IV), foi o cristianismo. A importância romana foi não só directa, através destes e outros legados culturais, como indirecta e ainda presente, já que a Civilização Romana se constitui como uma das fontes matriciais da Civilização Europeia.

A importância de Roma não foi, no entanto, apenas cultural, já que importantes processos de colonização populacional também se verificaram, nomeadamente através da presença contínua de legiões romanas e dos estabelecimentos subsidiados de legionários após o cumprimento do serviço militar (os chamados eméritos - daí a existência de cidades assim chamadas, como Emerita Augusta, hoje Mérida, em Espanha, e antiga capital da província romana da Lusitânia).

Os germânicos

Hispânia em 560 - a verde, a zona de implantação Sueva

No início do século V, no âmbito da decadência do Império Romano do Ocidente, vários povos germânicos invadem a Península Ibérica. Os suevos (quados e marcomanos; acompanhados por um pequeno grupo de búrios[61]) e os vândalos (silingos e asdingos; acompanhados dos seus aliados sármatas, os alanos) estabelecem-se no ocidente peninsular. Os vândalos e alanos irão migrar na sua maioria para o Norte de África e serão substituídos por outra população germânica entretanto chegada à Península - os visigodos.

Serão os suevos e os visigodos, portanto, as populações germânicas que definitivamente se estabelecem em território ibérico. Apesar da presença de elementos visigodos em território português,[62] que denota algum grau de povoamento (essencialmente de elite) espalhado por todo esse território, será a presença sueva a mais duradoura e com maior impacto.

Os suevos, que estabelecem um reino independente na antiga província romana da Galécia (incluindo a moderna Galiza e o território português entre os rios Minho e Douro; de notar que a fronteira sueva foi flutuante, muitas vezes se expandindo para lá do Tejo e incluindo, portanto, Lisboa), com capital em Bracara (hoje Braga), e que resistiu à anexação pelo Reino Visigótico durante quase 200 anos, foram a população germânica que mais impacto terá tido nas populações de Portugal, já que muitos deles se estabeleceram como agricultores e se disseminaram pelo conjunto da população e território.[63] A população sueva estabelecida na Galécia é estimada entre 30 a 35 mil indivíduos, isto é 6% a 12% da população total da Galécia (correspondente à metade Norte de Portugal e Galiza) de então que eram o mesmo povo.[64]

Estas populações germânicas rapidamente adquiriram os hábitos, religião e língua das populações que inicialmente dominaram, ao ponto de a sua diferenciação étnico-linguística ter desaparecido, só permanecendo a pertença visigoda como elemento de distinção nobiliárquica e linhagística. Os visigodos foram, inclusive, elementos centrais de reforço da romanização mais tardia de Portugal e de toda a Península Ibérica, com a sua conversão do arianismo ao catolicismo e a promulgação de legislação, inclusive "códigos", em relativa continuidade com o Direito romano.

Os mouros

A Expansão Islâmica

Em 711 a Península Ibérica foi invadida por exércitos Islâmicos norte-africanos, conhecidos pela designação genérica de mouros - tratava-se essencialmente de berberes com elementos árabes. A presença e domínio islâmico na Península (chamada Al-Andalus, em árabe الإندلس ) veio a revelar-se um processo duradouro com importantes consequências civilizacionais. Se a campanha de conquista muçulmana, aproveitando-se de uma guerra civil entre diferentes facções visigodas pelo trono da Hispânia visigótica, demorou somente 8 anos, o domínio mouro em território português prolongou-se até à conquista definitiva do Reino do Algarve pelos portugueses em 1249.

De facto, foi a presença e o domínio islâmico que catalisou os processos produtores quer do Estado, quer da própria nacionalidade portuguesa, no contexto da reacção das elites e populações cristãs a que se convencionou chamar «Reconquista». Mas não pode pensar-se este processo de cinco séculos como um que tenha oposto linearmente as populações cristãs aos invasores islâmicos. Ocorreram processos de aculturação e entrecruzamento entre as populações autóctones da Península e as populações ditas «mouras». Os processos culturais foram de extrema importância: a complexidade, sofisiticação e envergadura civilizacional, os contributos tecnológicos e científicos, linguísticos e literários, intelectuais, artísticos, etc., do Islão na Península Ibérica (e, por essa via, para toda a Civilização Europeia) foram de tal ordem que levam vários historiadores a falar, pelo menos para alguns dos períodos de dominação islâmica, de uma idade de ouro civilizacional, a que toda a Europa muito deveria.[65]

Além dos processos culturais, também ocorreram decerto processos démicos ou populacionais. Esta questão, a do contributo de populações mouras para o património genético das populações ibéricas modernas, levantou desde cedo muita controvérsia, não só por causa das conotações religiosas e políticas dessa presença moura no âmbito das discussões e competições nacionais e estatais intra-europeias, mas, acima de tudo, pelas conotações «raciais» dessa presença.

Desde a generalização das ideologias racistas e racialistas europeias a partir do século XIX, o período mouro da história peninsular foi usado como argumento para desqualificar «racial» e culturalmente os povos ibéricos da sua pertença europeia. Tais argumentos equiparam essa suposta componente norte-africana dos povos ibéricos a uma componente apenas qualificada como «africana» (ou seja, tendencialmente, subsariana, isto é, «negra»). Nos mundos de língua inglesa e alemã, por exemplo, a definição de «mouro», embora não sem ambiguidades, torna o termo praticamente sinónimo de «negro». Estas construções, particularmente vindas do mundo anglófono, foram historicamente mais relevantes aquando dos processos de competição colonial entre as potências ibéricas, particularmente a Espanha e as do norte da Europa, especialmente quando tais conflitos foram replicados luta entre catolicismo e protestantismo.

Estas visões racistas e racialistas, tal como muitas outras perspectivas mais generalizadas (inclusive na própria Península Ibérica) que, ainda que não tão marcadamente discriminatórias como as anteriores, fazem dos mouros ibéricos uma população e categoria «racial» radicalmente diferente das populações autóctones ibéricas, não têm em consideração os seguintes aspectos:

  • As populações norte africanas (bem como os pequenos grupos de árabes, de subsarianos, de escravos eslavos, de persas, etc., a elas associadas), mesmo com os diferentes momentos de entrada dessas populações ao longo dos séculos (coincidindo em grande medida com a entrada de novos exércitos aquando dos momentos de luta interna, política ou religiosa - fitna, no Al-Andalus), foram sempre uma minoria que não terá ultrapassado os 10% do conjunto da população total.[66]
  • A maioria da população muçulmana da Península Ibérica era constituída por autóctones ibéricos convertidos (os chamados Muladis), isto é; a maioria dos "mouros" eram de facto europeus, ibéricos de religião islâmica.[66]
  • A maioria da população em zonas de domínio muçulmano, ao longo de todos os séculos de presença, não era muçulmana (com algumas excepções localizadas espacial e temporalmente), mas sim população autóctone ibérica que se manteve de língua românica e cristã (do rito visigótico), ainda que fortemente arabizada do ponto de vista cultural - os chamados moçárabes[67] (repare-se que Moçárabe, para designar a população ou a língua, é um termo moderno do século XIX - essas populações referiam-se a si próprias e à sua língua como Latinus[68]).
  • A maioria das populações norte-africanas que de facto se estabeleceram na Península eram berberes. Os Berberes, particularmente das regiões mais litorais, não podem ser descritos como uma população radicalmente diferente das populações sul-europeias, com as quais, aliás, apresentam ligações ancestrais.
  • Mesmo nas elites islâmicas, a presença de elementos conversos não era despicienda - mesmo algumas dinastias reinantes tinham origem hispano-visigótica (como os Banu Cassi, fundados pelo converso hispano-visigodo Conde Cássio).
  • Os processos sociais do final da Reconquista e do período seguinte instituíram sistemas de discriminação social (geridos em parte pelas autoridades religiosas) que guetizaram e até expulsaram (para o Norte de África) fatias significativas das populações ditas mouriscas (as quais de qualquer modo, tinham uma origem basicamente autóctone ibérica).

As populações berberes

O berbere é uma categoria etno-linguística que agrupa grupos humanos muito diversificados cultural e populacionalmente. Quando se fala dos berberes como elemento central das populações mouras de origem norte africana na Península Ibérica, fala-se essencialmente de populações com línguas do grupo berbere das regiões litorais do Norte de África (embora os almorávidas tivessem uma origem mais a sul). Estas populações inscrevem-se, no essencial nos tipos humanos e démicos do Mediterrâneo[69] (classificados como «caucasianos» no âmbito da antiga e ultrapassada Antropologia Física de tipo racialista[70]), tendo inclusive relações ancestrais com os movimentos populacionais europeus, e ibéricos em particular.

Existem populações humanas modernas no Norte de África desde o Paleolítico Superior. Estas parecem ter essencialmente origem no Médio Oriente, de onde se expandiram e povoaram o Norte de África. As culturas que parecem estar na origem démica das populações berberes foram a Cultura Ibero-Maurisiana (de há 20 a 10 mil anos) e a Cultura Capsiana (de há 10 a 5 mil anos), ambas as quais parecem ter alguma relação com as populações ibéricas dos mesmo períodos.

Área das culturas Ibero-Mauritana e Capsiana

Os resto humanos da Cultura Ibero-Maurisiana (ou Iberomaurisiense), nomeadamente o chamado Homem de Mechta-Afalou, apresentam características físicas que os levaram a ser classificados como cro-magnoides de tipo Europeu,[71][72] provavelmente com origem, pelo menos parcial, na Península Ibérica,[73] claramente diferenciadas de populações subsarianas, mesmo aquelas que apresentam características de transição como os Nuba do Sudão ou do Egipto.[74] Com a expansão do capsiense (declaradamente mais mediterrânico), este tipo humano retrocederia (entre outros sítios, para as Canárias, onde viria a consituir o substrato da população guanche), embora continuasse a fazer parte da base genética das populações que viriam a ser consideradas berberes. Nos finais do Calcolítico desenvolve-se um megalitismo norte-africano que parece proceder dos países europeus do Mediterrâneo ocidental, mormente da Península Ibérica, embora o contributo tenha sido mais cultural do que démico. O domínio fenício e cartaginês, romano, vândalo, bizantino e, finalmente, árabe, todos com relevante impacto cultural e que reforçaram a inscrição do norte de África nos processos civilizacionais mediterrânicos, terão também contribuído demicamente em nível reduzido, não alterando grandemente a base capsiense sobre um fundo ibero-mauritano dos povos da região.

As provas genéticas sobre as populações norte-africanas demonstram que estas, quer se considerem a si mesmas berberes ou árabes, são, do ponto de vista démico, berberes - o que demonstra o fraco impacto populacional de migrações da Península Arábica aquando dos processos de expansão islâmica (neste sentido a arabização e islamização do Norte de África foi essencialmente um fenómeno cultural sem substituição genética).[75] Segundo Bosch et al. (2001),[75] as origens históricas das linhagens masculinas do moderno noroeste africano podem ser sintetizadas como 75% autóctones do Paleolítico Superior, 13% de origem Neolítica (do Médio Oriente),[76] 4% de origem histórica europeia e 8% de recente contribuição subsariana. Mesmo que a questão da contribuição genética com origem no Médio Oriente seja ainda objecto de alguma discussão[77] (tal como o nível de contribuição subsariana[78][79][80][81][82]), parece certo que as modernas populações berberes (e, por maioria de razão, as da época de domínio muçulmano do Al-Andalus) possuem uma assinatura genética que partilham de migrações passadas com europeus e asiáticos, mas não com Africanos subsarianos.[83] Adicionalmente, estudos recentes do ADN mitocondrial demonstram existir uma ligação entre as populações berberes e os Lapões do norte da Escandinávia, o que vem confirmar que o refúgio franco-ibérico (pirenaico-cantábrico) do sudoeste europeu foi a fonte das expansões tardo-glaciais de caçadores-recolectores que repovoaram a Europa do Norte depois do último máximo glaciar e revelam uma ligação directa (por via materna) entre essas populações europeias e as berberes.[84][85]

O legado genético do domínio islâmico

Existem vários estudos focados no impacto dos séculos de domínio e presença islâmica na Península Ibérica no património genético das populações da Península Ibérica.

Alguns desses estudos apontam para relação parcial, ainda que pequena, entre algumas das populações ibéricas (nomeadamente do extremo sudeste da Península) e algumas populações norte-africanas. A Península Ibérica e a Sicília são as únicas regiões europeias com níveis significativos do haplotipo Y-cromossomático E-M81 (típico do noroeste africano; de notar que este e outros marcadores genéticos deste tipo estão também presentes noutras regiões da Europa - a questão é de significado estatístico das frequências).[86][87] Por outro lado, é difícil saber se estas contribuições para o genoma ibérico são o resultado dos séculos de domínio muçulmano ou de antigos processos démicos que antecedem a presença islâmica, constituindo o resultado de algum fundo populacional e migratório do Ocidente mediterrânico, como se constata quando se analisam as populações berberes norte-africanas. No caso português, pelo menos, parece ser esta claramente a situação.[88]

A maioria dos estudos genéticos verifica que a presença de elementos norte-africanos nas modernas populações ibéricas é menor quando comparada com a base ancestral pré-islâmica.[89] De facto, verifica-se uma clara descontinuidade genética entre o norte de África e a Península Ibérica,[75] já que vários desses estudos não detectam nenhuma relação particular entre populações ibéricas (mesmo as do Sul, na Andaluzia; mais tempo submetidas ao domínio islâmico) e norte-africanas[80] Os resultados destes estudos mostram, globalmente, que as populações ibéricas e norte-africanas se originaram em linhagens genéticas diferentes e que o Estreito de Gibraltar funcionou como uma significativa barreira ao fluxo de genes. Não só cerca de 78% dos cromossomas Y ibéricos têm origem no Paleolítico Superior e 10% nas expansões Neolíticas, também apenas 6%, no máximo, poderão ter origem norte-africana, sendo que o genoma norte-africano tem ele próprio cerca de 4% de contribuição genética europeia[75] O domínio islâmico terá, assim, deixado uma contribuição démica mínima.

Na realidade, as populações ibéricas apresentam um grau substancial de homogeneidade e de clara pertença ao conjunto europeu de diversidade genética.[90] A clara diferenciação entre as populações do noroeste africano e da Península Ibérica sugerem que o Mar Mediterrâneo funcionou, neste caso, como uma forte barreira geográfica que restringiu os fluxos démicos, ainda que fortes factores culturais também possam ter jogado o seu papel.[90]

As minorias mouriscas e judias

A presença islâmica na Península não foi um processo pacífico, embora não tenha sido apenas um processo bélico. Desde cedo se verificaram processos reactivos por parte das elites e populações cristãs peninsulares. Tal levou à formação de entidades estatais no norte da Península, área que, de resto, pouca presença e influência islâmica teve. É desta reacção social, cultural e militar a que se convencionou chamar «Reconquista» que emergiram não só os estados ibéricos, mas também as modernas populações e identidades nacionais da Península.

Este é claramente o caso de Portugal. Desde a fundação do Condado de Portucale por Vímara Peres em 868, passando pela fundação do seu sucessor Condado Portucalense, já com D. Henrique, e incluindo os territórios flutuantes do antigo Condado de Coimbra, até à independência do Reino de Portugal com Afonso Henriques em 1139,[91] a História de Portugal é uma de construção política de um espaço geo-demográfico que se diferencia dos seus vizinhos cristãos (mormente a Galiza e o Reino de Leão, depois Reino de Castela) à custa do território conquistado aos muçulmanos. Este processo culminara com a tomada do Reino do Algarve por Afonso III em 1249, tornando Portugal a primeira nação da Península Ibérica a repor a soberania e valores cristãos. Na Espanha esse processo culminou em 1492 com os Reis Católicos.

Findo o domínio político e territorial islâmico, isso não eliminou totalmente a presença de populações islâmicas. Todo o processo histórico da Reconquista foi de grandes movimentações populacionais em toda a Península Ibérica - êxodos internos, conversões, re-conversões, alianças múltiplas, entrada e estabelecimento de populações «cruzadas» trans-pirenaicas (nomeadamente francesas, flamengas), etc. No essencial, no entanto, a base populacional não se alterou, sendo os processos então verificados mais culturais do que propriamentente démicos. Neste sentido, do ponto de vista demográfico e de integração social, as questões mais prementes que então se colocavam eram as de, por um lado, integrar as populações cristãs do norte (de rito romano e de língua galaico-portuguesa) com as populações moçárabes do sul (de rito visigótico e língua moçárabe) - o que foi rapidamente conseguido devido à irmandade religiosa (o Cristianismo) e linguística (românico ibérico ocidental), e de, por outro lado, integrar as duas populações que maior alteridade sociocultural e religiosa apresentavam - os mouriscos de religião muçulmana e os judeus sefarditas.

Existiam, portanto ainda, minorias mouriscas e judias em Portugal após o final da Reconquista. Ambas eram objecto de processos de discriminação de intensidade historicamente variável, sendo, por exemplo, obrigadas à residência circunscrita quando residentes em zonas de povoamento urbano (as chamadas judiarias e mourarias), bem como, nalguns momentos históricos, a indumentária específica facilmente identificável. Isso com certeza, contribuiu para um declínio e eventualmente exodo destas minorias.

Os mouriscos eram essencialmente populações de religião islâmica (mas muitas vezes de língua românica) que, como acima se viu, descendiam basicamente de populações Muladis, ou seja, de grupos autóctones ibéricos europeus, convertidos ao Islão durante os longos séculos de domínio muçulmano. Tratar-se-ia de populações pouco numerosas, pobres, concentradas especialmente em Lisboa, Setúbal, Évora e Algarve.[92]

Os judeus portugueses, maioritáriamente do subgrupo dos judeus sefarditas, eram uma presença mais antiga na Península, talvez remontando aos tempos romanos tardios, claramente documentada desde 482[93] e fortemente atestada desde os tempos visigóticos. Esta sempre foi uma minoria com um lugar problemático nas sociedades ibéricas (tal como nas europeias em geral), devido às particularmente fortes tendências anti-semitas que cedo se fizeram sentir no Cristianismo. A situação dos judeus em Portugal oscilou entre períodos de relativa tolerância até períodos de forte perseguição. Não se sabe qual a percentagem da população portuguesa que poderia ser judia nos finais da Idade Média (séculos XIV e XV), em 1492 e mesmo após a ordem de expulsão e conversões forçadas em massa ordenadas pelo rei Dom Manuel I em 1497. A fuga de muitos judeus portugueses para outros países europeus (Países Baixos, França, Inglaterra) bem como os países islâmicos do Mediterrâneo (Norte de África e Império Otomano), foi-se verificando ao longo dos séculos seguintes, já que a ordem de expulsão e conversões forçadas manuelinas, que também afectaram os mouriscos, não acabaram com os processos de controlo social e administrativo, nem com as perseguições e discriminações étnico-religiosas (como o Massacre de Lisboa de 1506).

A criação do estatuto diferenciado de cristão novo (com menos regalias sociais do que os cristãos velhos, aplicado aos descendentes e que subsistiria até 1772), no âmbito dos códigos de Limpeza de Sangue que se instituíram em toda a Península Ibérica, bem como o surgimento da Inquisição Portuguesa em 1536 (que duraria até 1821) e a obrigatoriedade de elementos distintivos de vestuário para cristãos novos, impôs um esquema de forte segregação e perseguição social que levou, a longo prazo, à extinção das comunidades judias (com a demograficamente insignificante excepção das comunidades marranas de cripto-judeus, em Belmonte e pouco mais), quer por assimilação, quer principalmente por êxodo.

A questão central no que concerne a origem populacional dos portugueses é que, mesmo que tivessem ficado estas minorias judias e mouriscas em percentagem relevante após a Reconquista, tal não alteraria, como não alterou, as características do espectro démico português, já que, por um lado, os mouriscos tinham uma origem essencialmente ibérica e, por outro, também a tinham os judeus ibéricos (cuja origem remota se encontra na presença de minúsculas populações judias vindas do Médio Oriente ou doutros locais do Império Romano cuja expansão demográfica se deveu a influxos populacionais ibéricos, bem como, no essencial, à conversão de autóctones.[94])

A escravatura africana (subsariana)

A presença africana subsariana resultante dos processos da escravatura atlântica tem sido alvo de debates e polémicas. Não só em relação a Portugal, mas igualmente em relação ao resto da Europa Ocidental,[95] isto porque havia um tráfico regular de escravos africanos não só de Portugal para Espanha, como para o resto da Europa.[96] No século XVI os escravos africanos tinham já substituído todos os outros grupos étnicos e religiosos de escravos nos mercados de escravos europeus ocidentais.[97] Não só foi tradicionalmente difícil quantificar o número de escravos «negros» em território português, também sempre foi difícil estimar, dadas nomeadamente as assimetrias na composição sexual das populações escravizadas, a taxa de reprodução dessas populações (por oposição, em especial, à sua substituição por novos contigentes importados). Este tema foi e é igualmente alvo de discussões de carácter político dadas a exageros, desde tentativas bem fundamentadas de reabilitação do papel dos africanos na história portuguesa,[98] até visões racistas que pretendem, pela visão negativa das populações africanas, discriminar Portugal e os Portugueses.[99] No entanto, até a antiga e desacreditada antropologia física racialista recusava a ideia de que se tivesse verificado um significativo influxo de populações subsarianas em Portugal.[100] Assim, não existe qualquer prova que em Portugal ou resto da Europa Ocidental, históricamente com domínios coloniais no passado; tenham sido deixadas marcas genéticas subsarianas de relevância[101] resultantes dos processos da escravatura.

É hoje sabido encontrarem-se marcadores genéticos subsarianos em todo o continente europeu, desde a Península Ibérica ao Báltico. Esses marcadores têm sido encontrados nomeadamente na Alemanha, Dinamarca, Grã-Bretanha, Finlândia, Sardenha, Sicília, Grécia, etc. Um estudo de 2005[102] encontrou frequências do haplogrupo de ADN Mitocondrial L (de origem subsariana) em 0.62% de uma amostra Dano-Alemã, 1% numa amostra Britânica, 3.83% numa amostra Ibérica (Portugueses e Espanhóis), 2.38% numa amostra Albanesa, 2.86% numa amostra da Sardenha e 0.94% numa amostra siciliana. Por seu lado, os haplogrupos Y-cromossomáticos de origem africana E e A foram detectados em Portugal (2%), França (2.5%), Alemanha (2%), Sardenha (1.6%), Áustria (0.78%), Itália (0.45%), Espanha (0.42%) e Grécia (0.27%).[103][104][105][106][107][108][109][110]

A explicação provável para a existência de linhagens subsarianas em Portugal é a escravatura moderna (séculos XV a XVIII), o que se torna ainda mais lógico quando essas linhagens sejam mais frequentes nas ilhas que foram povoadas nesse período, os arquipélagos dos Açores[111][112][113] e da Madeira,[114][115][116] que, mesmo assim, não apresentam grandes diferenças com Portugal Continental, de onde a maioria das linhagens genéticas provém (particularmente do Norte[117]), nem em relação às distribuições típicas da maioria das populações da Europa Ocidental.