Guerra dos Cem Anos

Guerra dos Cem Anos
Hundred years war collage.jpg
De cima, da esquerda para a direita: Batalha de La Rochelle; Batalha de Azincourt; Batalha de Patay e Joana d'Arc no Cerco de Orleães.
Data13371453
LocalFrança e Países Baixos
DesfechoVitória francesa decisiva e consolidação da Monarquia na França
Mudanças territoriaisA Casa de Valois garante o controle de toda a França, menos Pas-de-Calais
Beligerantes
Royal Arms of England (1399-1603).svg Reino da Inglaterra

Blason fr Bourgogne.svg Ducado da Borgonha
Blason region fr Bretagne.svg Ducado da Bretanha[1]
Armoiries Portugal 1247.svg Reino de Portugal
Blason Royaume Navarre.svg Reino de Navarra
Blason Nord-Pas-De-Calais.svg Condado da Flandres
Hainaut Modern Arms.svg Condado de Hainaut
CoA Pontifical States 02.svg Estados Papais
Blason France moderne.svg Reino da França

Blason Castille Léon.svg Coroa de Castela
Blason region fr Bretagne.svg Ducado da Bretanha[2]
Royal arms of Scotland.svg Reino da Escócia
Blason Lorraine.svg Ducado da Lorena
Armoiries Gênes.svg República de Gênova
Armoiries Jean de Luxembourg.svg Reino da Boêmia
Armas de Aragon.png Coroa de Aragão
Coat of Arms of the Kingdom of Majorca and the Balearic Islands (14th-20th Centuries).svg Reino de Maiorca
CoA Pontifical States 02.svg Papado de Avinhão
Comandantes
Royal Arms of England (1340-1367).svg Eduardo III (1337-1377)
Royal Arms of England (1340-1367).svg Ricardo II (1377-1399)
Royal Arms of England (1399-1603).svg Henrique IV (1399-1413)
Royal Arms of England (1399-1603).svg Henrique V (1413-1422)
Royal Arms of England (1470-1471).svg Henrique VI (1422-1463)
Arms of the Kings of France (France Ancien).svg Filipe VI (1337-1350)
Arms of the Kings of France (France Ancien).svg João II (1350-1364)
BlasonIledeFrance.svg Carlos V (1364-1380)
BlasonIledeFrance.svg Carlos VI (1380-1422)
BlasonIledeFrance.svg Carlos VII (1422-1453)

Guerra dos Cem Anos foi uma série de conflitos travados de 1337 a 1453 pela Casa Plantageneta, governantes do Reino da Inglaterra, contra a Casa de Valois, governantes do Reino da França, sobre a sucessão do trono francês. Cada lado atraiu muitos aliados para a guerra. Foi um dos conflitos mais notáveis ​​da Idade Média, em que cinco gerações de reis de duas dinastias rivais lutaram pelo trono do maior reino da Europa Ocidental. A guerra marcou tanto o auge da cavalaria medieval quanto seu subsequente declínio e o desenvolvimento de fortes identidades nacionais em ambos os países. Depois da Conquista Normanda, os reis da Inglaterra eram vassalos dos reis da França para suas posses em solo francês. Os reis franceses se esforçaram, ao longo dos séculos, para reduzir estas posses, no sentido de que apenas a Gasconha fosse deixada para os ingleses. A confiscação ou a ameaça de confisco deste ducado faziam parte da política francesa para controlar o crescimento do poder inglês, particularmente quando os ingleses estavam em guerra com o Reino da Escócia, um aliado da França.

Por intermédio de sua mãe, Isabel da França, Eduardo III da Inglaterra era o neto de Filipe IV da França e sobrinho de Carlos IV da França, o último rei da linha principal da Casa dos Capeto. Em 1316, foi estabelecido um princípio que negava a sucessão das mulheres ao trono francês. Quando Carlos IV morreu em 1328, Isabella, incapaz de reivindicar o trono francês para si, reivindicou-o para seu filho. Os franceses rejeitaram o pedido, sustentando que Isabella não podia transmitir um direito que ela não possuía. Por cerca de nove anos (1328-1337), os ingleses haviam aceitado a sucessão de Valois ao trono francês, mas a interferência do rei da França, Filipe VI, na guerra de Eduardo III contra a Escócia permitiu a Eduardo III reafirmar sua reivindicação ao trono francês. Várias vitórias esmagadoras inglesas na guerra - especialmente em Crecy, Poitiers e Agincourt - levantaram as perspectivas de um triunfo inglês definitivo. No entanto, os maiores recursos da monarquia francesa impediram uma conquista completa. A partir de 1429, decisivas vitórias francesas em Patay, Formigny e Castillon concluíram a guerra a favor da França, com a Inglaterra perdendo permanentemente a maior parte de suas principais possessões no continente.

Historiadores comumente dividem a guerra em três fases separadas por tréguas: a Guerra da Era Eduardiana (1337-1360); a Guerra Carolina (1369-1389); e a Guerra de Lancaster (1415-1453). Os conflitos locais nas áreas vizinhas, que estavam contemporaneamente relacionados com a guerra, incluindo a Guerra da Sucessão Bretã (1341-1364), a Guerra Civil de Castela (1366-1369), a Guerra dos Dois Pedros (1356-1375) em Aragão e a Crise de 1383–1385 em Portugal, foram aproveitados pelas partes para fazer avançar as suas agendas. Posteriormente, os historiadores adotaram o termo "Guerra dos Cem Anos" como uma periodização da historiografia para abranger todos esses eventos, construindo o mais longo conflito militar da história europeia.

A guerra deve seu significado histórico a múltiplos fatores. No final, os exércitos feudais haviam sido largamente substituídos por tropas profissionais e o domínio aristocrático cedera à democratização da mão-de-obra e das armas dos exércitos. Embora primeiramente um conflito dinástico, a guerra deu o ímpeto às ideias do nacionalismo francês e inglês. A introdução mais ampla de armas e táticas suplantou os exércitos feudais onde a cavalaria pesada tinha dominado. A guerra precipitou a criação dos primeiros exércitos permanentes na Europa Ocidental desde a época do Império Romano do Ocidente e assim ajudando a mudar seu papel na guerra. Com relação aos beligerantes, na França, guerras civis, epidemias mortais, fomes e mercenários reduziram a população drasticamente. As forças políticas inglesas ao longo do tempo vieram a opor-se à arriscada aventura. A insatisfação dos nobres ingleses, resultante da perda de suas terras continentais, tornou-se um fator que levou às guerras civis conhecidas como Guerras das Rosas (1455-1487).[3]

Antecedentes

Reino da França

A Europa em 1430, na última fase da Guerra dos Cem Anos.

No início do século XIV, o reino da França, drenado por grandes bacias fluviais e desfrutando de um clima favorável para a agricultura, estava florescendo, com seus 17 milhões de habitantes,[4][5] a primeira potência em termos demográficos da Europa. A sociedade agrícola baseia-se em um sistema feudal e religioso muito hierarquizado. A produção agrícola é capaz de alimentar a população (não havia mais fome desde o século XII[6]) e necessita da nobreza para defender a terra.[7]

O clero desempenha um importante papel social na organização da sociedade. Os clérigos são alfabetizados e têm habilidades na aritmética e gestão das instituições; os religiosos administram organizações de caridade[8] e escolas[9] onde somando-se com os feriados religiosos, o número de feriados chega a 140 por ano.[10]

Os atritos

Historiograficamente é registrada entre 1334 a 1452. As suas causas remotas prendem-se à época em que o duque da Normandia, Guilherme, o Conquistador, apoderou-se da Inglaterra em (1066). Desde Guilherme, os monarcas ingleses controlavam extensos domínios senhoriais em território francês, ameaçando o processo de centralização monárquica da França que se esboçava desde o século XII. Durante os séculos XII e XIII, os soberanos franceses tentaram, com crescente sucesso, restabelecer a sua autoridade sobre esses feudos.[carece de fontes?]

No século XII, o rei Henrique II da Inglaterra se casou com Leonor da Aquitânia e, segundo as tradições feudais, tornou-se vassalo do rei da França nos ducados da Aquitânia (Antiga Guiena, Guyenna ou Guyenne) e Gasconha. Desde então, as relações entre os reis da Inglaterra e França foram marcadas por conflitos políticos e militares. Isso culminou na questão da soberania sobre a Gasconha. Pelo Tratado de Paris (1259), Henrique III de Inglaterra abandonara as suas pretensões sobre Normandia, Maine, Anjou, Touraine e Poitou, conservando apenas a Gasconha. Os constantes conflitos vinham pelo fato do rei inglês, que era duque da Gasconha, ressentir-se de ter de pagar pela região aos reis franceses e de os vassalos gascões frequentemente apelarem ao soberano da França contra as decisões tomadas pelas autoridades inglesas na região.[carece de fontes?]

João II de Valois condecora cavaleiros. miniatura do século XV, na Biblioteca Nacional da França.

As influências francesa e inglesa em Flandres (atual Bélgica e Países Baixos) eram também opostas, pois os condes desse território eram vassalos da França e, por outro lado, a burguesia estava ligada economicamente à Inglaterra. Além do intenso comércio estabelecido na região, Flandres era importante centro produtor de tecidos, que consumia grande parte da produzida pela Inglaterra. Essa camada urbana vinculada à produção de tecidos e ao comércio posicionava-se a favor dos interesses ingleses e portanto, contra a ingerência política francesa na região. Resolveram, flamengos e ingleses, estabelecer uma aliança, que irritou profundamente o rei da França, também interessado na região. Com muita sabedoria, eles obedeceram à nova lei pública na Europa, portanto estavam numa crise de guerras Europeias.[carece de fontes?]

O estopim dos conflitos se deu com o problema sucessório resultante da morte do terceiro e último filho de Filipe IV, o Belo, Carlos IV, em 1328. Entre os possíveis sucessores estavam: o rei inglês Eduardo III, da dinastia Plantageneta, sobrinho do falecido monarca pelo lado materno, detentor dos títulos de duque da Aquitânia e conde de Ponthieu (na região do canal da Mancha); e o nobre francês Filipe, conde de Valois, sobrinho de Filipe IV, o Belo, pertencente a um ramo secundário da família real. As pretensões dos dois foram examinadas por uma assembleia francesa que, apoiando-se na lei sálica, segundo a qual o trono não poderia ser ocupado por um sucessor vindo de linhagem materna, inclinou-se para o candidato nacional, aclamando o sobrinho, Filipe de Valois, com o título de Filipe VI. O rei inglês não discutiu a decisão, reconhecendo Filipe VI em Amiens em 1329.[carece de fontes?]

Retrato do monarca inglês Eduardo III.

O Conde de Nevers, regente de Flandres desde 1322, prestou juramento de obediência ao seu suserano Filipe VI, decisão que poderia paralisar a economia flamenga. Eduardo III, após a intervenção de Filipe VI em Flandres apoiando o conde contra os amotinados flamengos, suspende as exportações de lãs. A burguesia flamenga forma um partido a favor do rei de Inglaterra, incitando-o a proclamar-se rei de França. Assim, Eduardo III, instigado por Jacques Artervelde - rico mercador que já havia liderado uma rebelião na cidade flamenga de Gante - e temendo perder o ducado francês de Ducado da Aquitânia - mantido como feudo de Filipe VI -, repudiou o juramento de Amiens e alegou a superioridade de seus títulos à sucessão.[carece de fontes?]

Os franceses acusavam os ingleses de desenvolverem uma política expansionista, percebida pelos interesses na Aquitânia e em Flandres. Já os ingleses insistiam em seus legítimos direitos políticos e territoriais na França. Embora tenham ocorrido crises anteriores, em geral, a data de 24 de maio de 1337 é considerada como o início da guerra: nesse dia, após uma série de discussões, Filipe VI, cônscio da grave ameaça que representava para os seus domínios a existência de um ducado leal à coroa inglesa, apoderou-se de Aquitânia. Eduardo respondeu imediatamente: não reconheceu mais "Filipe, que dizia ser rei da França", e ordenou o desembarque de um exército em Flandres. Iniciava-se a Guerra dos Cem Anos. A situação se deteriorou diante do auxílio francês à independência da Escócia nas guerras que Eduardo III e o seu pai haviam iniciado contra os reis escoceses para ocupar o trono desse país.[carece de fontes?]