Guerra Peninsular

Guerra Peninsular
Parte das Guerras Napoleónicas
El dos de mayo de 1808 en Madrid rdit.jpg
2 de maio de 1808: La carga de los mamelucos, de Francisco de Goya
Data2 de maio de 180817 de abril de 1814
LocalPortugal, Espanha, sudoeste de França
DesfechoVitória dos aliados
Combatentes
Reino Unido Reino Unido
Flag of Spain (1785–1873, 1875–1931).svg Espanha
Reino de Portugal Portugal
Flag of France (1794–1815, 1830–1958).svg Império Francês
Bandera de España 1808-1813.svg Espanha Bonapartista
Líderes e comandantes
Reino Unido Arthur Wellesley
Reino UnidoFlag of Portugal (1707).svg William Beresford
Reino Unido John Moore
Flag of Spain (1785–1873, 1875–1931).svg Miguel Álava Esquivel
Flag of Spain (1785–1873, 1875–1931).svgJoaquín Blake
Flag of Spain (1785–1873, 1875–1931).svg Francisco Castaños
Flag of Spain (1785–1873, 1875–1931).svg Juan Martín Díez
Flag of Spain (1785–1873, 1875–1931).svg José de Palafox
Flag of Spain (1785–1873, 1875–1931).svg Gregorio de la Cuesta
Flag of Portugal (1707).svg Bernardino Freire
Flag of Portugal (1707).svg Miguel Pereira Forjaz
Flag of Portugal (1707).svg Carlos Federico Lecor
Flag of Portugal (1707).svg Francisco da Silveira
Flag of France (1794–1815, 1830–1958).svg Napoleão I
Flag of Spain (1785–1873, 1875–1931).svg Flag of France (1794–1815, 1830–1958).svg José Bonaparte
Flag of France (1794–1815, 1830–1958).svg Joaquim Murat
Flag of France (1794–1815, 1830–1958).svg Jean-Andoche Junot
Flag of France (1794–1815, 1830–1958).svg Jean de Dieu Soult
Flag of France (1794–1815, 1830–1958).svg André Masséna
Flag of France (1794–1815, 1830–1958).svg Michel Ney
Flag of France (1794–1815, 1830–1958).svg Louis Gabriel Suchet
Flag of France (1794–1815, 1830–1958).svg Joseph Mortier
Flag of France (1794–1815, 1830–1958).svg Auguste de Marmont
Flag of France (1794–1815, 1830–1958).svg Jean-Baptiste Bessières
Flag of France (1794–1815, 1830–1958).svg Jean-Baptiste Jourdan
Flag of France (1794–1815, 1830–1958).svg Claude Victor-Perrin
1 000 000 de mortos (entre civis e militares)[1]

A Guerra Peninsular (1807–1814) foi um conflito militar entre o Primeiro Império Francês e a aliança do Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda, do Império Espanhol e do Reino de Portugal e Algarves pelo domínio da Península Ibérica durante as Guerras Napoleónicas. O conflito teve início quando os exércitos franceses e espanhóis invadiram e ocuparam Portugal em 1807, tendo voltado em 1808 após a França se ter voltado contra a Espanha, sua aliada até então. A guerra prolongou-se até à derrota de Napoleão pela Sexta Coligação em 1814, sendo vista como uma das primeiras guerras de libertação nacional e significativa na emergência da guerrilha em grande escala.

A guerra peninsular coincide com o que os historiadores hispanófonos denominam "Guerra de Independência Espanhola", que teve início com o levantamento de dois de maio de 1808 e terminou em 17 de abril de 1814. A ocupação francesa destruiu o governo da Espanha, que se fragmentou em diversas juntas provinciais que se disputavam entre si. Em 1810, o reconstruído governo de nacional, as Cortes de Cádis, fortificou-se em Cádis, embora não tenha conseguido reorganizar o exército devido ao cerco de mais de 70 000 soldados franceses. Por fim, as forças britânicas e portuguesas asseguraram o controlo de Portugal, usando o país como ponto de partida de campanhas contra o exército francês e para o abastecimento das tropas espanholas. Ao mesmo tempo, o exército e as guerrilhas espanholas empatavam um número considerável de tropas napoleónicas. As forças aliadas, tanto regulares como irregulares, impediram os marechais franceses de subjugar as províncias espanholas rebeldes ao restringir o domíno territorial francês, fazendo com que a guerra se prolongasse por vários anos de empate.

O longo período de combate em Espanha representou um fardo pesado para a Grande Armée francesa. Embora os franceses obtivessem vitórias em batalha, as suas comunicações e linhas de abastecimento eram sistematicamente sabotadas e as suas unidades eram frequentemente isoladas, assediadas ou dominadas por partisans que praticavam uma guerrilha intensiva de raides e emboscadas. Embora os exércitos espanhois fossem sucessivamente derrotados e empurrados para a periferia, reagrupavam-se e perseguiam incessantemente os franceses.[2][3]

As forças britânicas, sob o comando de Arthur Wellesley, organizaram diversas campanhas contra os franceses em Espanha com o apoio português. O exército português, desmoralizado na sequência das invasões napoleónicas, foi reorganizado e reequipado sob o comando do general William Carr Beresford.[4] Carr fora nomeado comandante-chefe das forças portuguesas pela família real no exílio, combatendo integrado no exército anglo-português sob o comando de Wellesley. Em 1812, quando Napoleão partiu com grande parte do exército francês para a desastrosa campanha de conquista da Rússia, um exército conjunto aliado liderado por Wellesley entrou em Espanha e conquistou Madrid. Perseguido pelo exército espanhol, britânico e português e sem apoio de França, o marechal Nicolas Jean de Dieu Soult bateu em retirada, guiando o desmoralizado e exausto exército francês pelos Pirenéus durante o inverno de 1813-14.

A guerra e a revolução contra a ocupação napoleónica levaram à redação da Constituição espanhola de 1812, um marco do liberalismo europeu.[5] No entanto, o esforço de guerra destruiu o tecido social e económico de Portugal e Espanha e provocou um período de instabilidade social e política e estagnação económica. Neste período, desencadearam-se na Península diversas e devastadoras guerras civis entre facções liberais e absolutistas, lideradas por oficiais treinados na guerra peninsular, e que se prolongaram até à década de 1850. As sucessivas crises provocadas pela invasão, revolução e restauração precipitaram a independência de grande parte das colónias espanholas e a independência do Brasil de Portugal.

Antecedentes

Subjugada pela derrota na Campanha do Rossilhão, Espanha aliou-se à França. Em 1806, enquanto se encontrava em Berlim, Napoleão Bonaparte decretou o Bloqueio Continental, que proibia as importações britânicas para a Europa continental.[6] Portugal, que se mantinha neutro, tentou em vão evitar o ultimato de Napoleão, uma vez que desde 1373 que era signatário de um tratado de aliança com Inglaterra e, posteriormente, com o Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda. Após a assinatura dos Tratados de Tilsit em 1807, que confirmaram o domínio francês sobre a Europa central e de leste, Napoleão decidiu capturar os portos ibéricos.[7][8] A decisão contrariou as suas próprias afirmações no início da sua carreira, quando afirmou que Espanha muito dificilmente seria conquistada.[9] Em 27 de outubro de 1807, o primeiro-ministro espanhol Manuel de Godoy assinou com França o secreto tratado de Fontaineblau, mediante o qual os dois países se comprometiam a conquistar Portugal, cujo território seria dividido em três reinos; o novo Reino da Lusitânia Setentrional, o Algarve (incluindo o Alentejo) e o restante Reino de Portugal.[10][11]

Em 1807, a Espanha vivia uma situação de instabilidade política e corrupção, e o rei Carlos IV era considerado incompetente para governar o país. Napoleão, agora imperador de França, decidiu explorar as tensões na corte espanhola. Simulando empatia com a situação e intenções benévolas, convidou Carlos e o seu filho Fernando para Paris. No entanto, aproveitou a ausência da família real para invadir Espanha.[12] Em Madrid, assitia-se ao crescente afrancesamento da corte e do povo, observado sobretudo nos majos – pessoas de classes inferiores que se vestiam com trajes tradicionais exagerados e de comportamento pomposo ou fútil.[13]

Sob o pretexto de reforçar o exército franco-espanhol para a ocupação de Portugal, as tropas imperiais francesas entraram em Espanha. Apesar de crescentes tensões diplomáticas, foram recebidas com entusiasmo pela população. No entanto, em fevereiro de 1808, Napoleão virou-se contra o aliado e ordenou aos comandantes espanhois que tomassem as fortificações espanholas.[14] Barcelona foi tomada em 29 de fevereiro de 1808, após uma coluna francesa sob disfarce de escolta de militares feridos ter convencido as autoridades a abrir os portões da cidade.[15]

O exército espanhol, com cerca de 100 000 homens, encontrava-se paralisado. Além de mal equipado e com escassez de cavalos, muitas unidades não tinham liderança e encontravam-se espalhadas por um imenso território, desde Portugal até às ilhas Baleares. A Divisão do Norte, constituída por 15 000 dos homens mais experientes e liderada por Pedro Caro y Sureda, tinha sido cedida a Napoleão em 1807 e encontrava-se na Dinamarca sob comando francês.[16]

Em março de 1808, os motins populares frente ao palácio de inverno em Aranjuez forçaram o rei Carlos IV a abdicar do trono para o seu filho Fernando VII no dia 19 de março.[17] Embora de contornos populares, estes motins foram instigados pelo exército, constituindo de facto um golpe de estado da Guarda Real. Quando entrou em Madrid, a 24 de março, Fernando foi aclamado como salvador nacional.[18]