Economia heterodoxa


Economia heterodoxa[1] é uma categoria que se refere a abordagens ou escolas de pensamento econômico que são consideradas fora da economia ortodoxa. A economia heterodoxa é uma expressão ampla que cobre campos, projetos ou tradições separados e às vezes distantes, que incluem o (antigo) institucionalismo, a economia pós-keynesiana, feminista, marxiana e austríaca, dentre outras.[1][2]

Enquanto a economia ortodoxa pode ser definida em torno do nexo "equilíbrio-racionalidade-individualismo" [carece de fontes?], a economia heterodoxa pode ser definida em termos de um nexo "estrutura histórico-social-institucional". Perceba que existe uma ênfase distinta ao se distinguir as economias ortodoxas e heterodoxas dessa maneira em comparação com a interpretação dessa divisão como sendo entre um sistema-fechado em oposição a um sistema-aberto, respectivamente (Lawson,1997);[1] (Dow, 2000)[3]

É difícil definir a economia heterodoxa. A Confederação Internacional das Associações pelo Pluralismo na Economia (CIAPE) tem prudentemente evitado dar definições muito precisas para a "heterodoxia", escolhendo afirmar sua missão como sendo a de "promover o pluralismo na economia".[carece de fontes?] Todos os tipos de socialismo são considerados heterodoxos, mas nem todas as escolas heterodoxas são socialistas. Um desafio central para a heterodoxia é se auto-definir de forma mais precisa do que simplesmente economia não-neoclássica. Ao definir um denominador comum no "comentário crítico" alguns economistas heterodoxos, como Steve Cohn (Knox College, USA), tem tentado fazer três coisas: (1) identificar idéias compartilhadas que gerem um padrão de crítica heterodoxa através de tópicos e capítulos de textos didáticos introdutórios de macroeconomia; (2) dar atenção especial a idéias que liguem diferenças metodológicas com diferenças em relação à formulação de políticas; e (3) caracterizar as semelhanças de maneira que permita que paradigmas distintos desenvolvam diferenças comuns com a economia dos livros didáticos de diferentes formas. Os heterodoxos aceitam a intervenção do estado, enquanto que os ortodoxos acreditam no livre equilibrio entre oferta e demanda.

Um estudo sugere quatro fatores chaves como importantes para o estudo da economia pelos economistas heterodoxos: história, sistemas naturais, incerteza e poder.[4]

No Brasil, as principais instituições de ensino que seguem a tradição heterodoxa é o Institutos de Economia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e a Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), apesar desta última se enquadrar no ensino plural das ciências econômicas, ensinando aos alunos tanto expoentes da Economia Heterodoxa quanto da Economia Ortodoxa. Já dentre os economistas heterodoxos no Brasil tem-se em Celso Furtado, Luiz Gonzaga Belluzzo e Maria da Conceição Tavares os principais nomes dessa escola de pensamento, mas também sendo representada por Jorge Miglioli, Wilson Cano, Mário Possas, João Manuel Cardoso de Mello, Luciano Coutinho, Aloisio Teixeira, Carlos Lessa, além de outros nomes importantes no pensamento econômico brasileiro.

História

Várias escolas heterodoxas do pensamento econômico desafiaram a dominância da economia neoclássica após a revolução neoclássica da década de 1870. Além das críticas socialistas do capitailsmo, escolas heterodoxas deste período incluíram defensores de várias formas de mercantilismo, tais como os dissidentes da Escola Americana da metodologia neoclássica e a escola historicista, e defensores das teorias monetárias não-ortodoxas tais como a do crédito social. Outras escolas heterodoxas ativas antes e durante a Grande Depressão incluíam a tecnocracia e o georgismo.

Cientistas físicos e biólogos foram os primeiros indivíduos a usar fluxos de energia para explicar o desenvolvimento social e econômico. Joseph Henry, um físico estadosunidense e primeiro secretário da Instituição Smithsonian, observou que o "princípio fundamental da economia política é que o trabalho físico do homem pode somente ser melhorado pela... transformação da matéria de um estado cru para uma condição artificial... ao gastar o que é chamado de força ou energia".[5][6]

A ascensão e absorção da economia keynesiana no mainstream, que parecia fornecer uma resposta política mais coerente ao desemprego do que as políticas heterodoxas monetária e comercial, contribuiu para a diminuição do interesse nessas escolas.

Após 1945, a síntese neoclássica das economias keynesiana e neoclássica resultou em uma posição ortodoxa claramente definida baseada em uma divisão do campo em microeconomia (geralmente neoclássica, mas com uma recém-desenvolvida teoria da falha de mercado) e macroeconomia (dividida entre as visões keynesiana e monetarista em assuntos como o papel da política monetária). Austríacos e pós-keynesianos que se tornaram dissidentes desta síntese emergiram como escolas heterodoxas claramente definidas. Além disso, as escolas marxistas e institucionalista permaneceram ativas.

Até a década de 1980 a economia heterodoxa podia ser assim definida:

  1. rejeição da concepção atomística do indivíduo favorecendo uma concepção do indivíduo caracterizado socialmente;
  2. ênfase no tempo como um processo histórico irreversível;
  3. raciocínio em termos de influências mútuas entre indivíduos e estruturas sociais.

Por volta de 1980 mudanças significativas começaram a ocorrer na economia. Importantes programas de pesquisa começaram, de várias formas, a serem reconhecidos pela economia ortodoxa, como a economia comportamental, da complexidade, evolucionária, experimental, neural entre outras. Como consequência, alguns economistas heterodoxos, como John B. Davis, propuseram que a definição de economia heterodoxa teria de ser revista e adaptada a essa nova e mais complexa realidade.[7]

O argumento da seção anterior é que a economia heterodoxa pós-1980 é uma estrutura complexa, sendo composta de dois tipos distintos de trabalhos heterodoxos, cada um internamente deferenciado em vários programas de pesquisa com diferentes origens históricas e orientações: a tradicional heterodoxia "de esquerda", familiar à maioria e a 'nova heterodoxia' resultante da influência de outras ciências.[7]