Correntes do anarquismo

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Apesar de terem em comum os mesmos princípios, as posições dos anarquistas em relação a certas questões não constituem um todo homogêneo e o anarquismo tem sido marcado por diversos debates e divergências.[1] As divergências existentes entre os anarquistas constituíram as bases para uma reflexão acerca do estabelecimento de correntes do anarquismo.[2] Entretanto, as diferenciações entre as correntes anarquistas foram estabelecidas de acordo com diferentes critérios pelos estudiosos do tema,[3] não havendo nenhum consenso definido no estabelecimento das correntes anarquistas.[4] Entretanto, novos estudiosos do anarquismo têm percebido a centralidade e a relevância dos debates anarquistas acerca da estratégia, que historicamente dividiram os anarquistas, e a partir deles, estabeleceram duas correntes do anarquismo: anarquismo insurrecionário e anarquismo social.[5]

Primeiras tentativas de estabelecer as correntes do anarquismo

Max Nettlau sustentou que haveria quatro correntes no anarquismo: coletivismo, comunismo, individualismo — todas definidas a partir da perspectiva de distribuição dos frutos do trabalho na sociedade futura; a primeira, de acordo com o trabalho realizado, a segunda, de acordo com as necessidades, a terceira, a partir de um isolamento relativo e de trocas equivalentes — e sindicalismo revolucionário, definida pela estratégia adotada pelos anarquistas para intervenção social e para a organização da sociedade futura.[6]

George Woodcock considerava haver as seguintes correntes: anarcoindividualismo, definida pela rebeldia individual e fundamentada na obra de Stirner e Godwin;[desambiguação necessária] mutualismo, definida pela associação comunitária e produtiva em cooperativas econômicas e fundamentada na obra de Proudhon; coletivismo, anarcocomunismo e anarcossindicalismo, definidas da mesma maneira que fez Nettlau, levando em conta que, para Woodcock, sindicalismo revolucionário e anarcossindicalismo são sinônimos; e anarquismo pacifista, definida pelo princípio da não violência e fundamentada na obra de Tolstói.[7]

Daniel Guérin considerou duas correntes, o anarquismo individualista e o anarquismo social, ainda que negando possíveis contradições entre essas correntes.[8] Peter Marshall, assim como Guérin, afirmou que as diferenças fundamentais entre os anarquistas se expressam nas correntes do anarquismo individualista e do anarquismo social; para ele, os primeiros "veem o perigo da cooperação obrigatória e preocupam-se que uma sociedade coletivista possa conduzir à tirana do grupo", enquanto os segundos "preocupam-se que uma sociedade de individualistas possa tornar-se atomizada e que o espírito de competição possa acabar com o apoio mútuo e a solidariedade geral".[9]

Iain McKay, autor de An Anarchist FAQ, discutiu de maneira bastante aprofundada os debates anarquistas e chegou em algumas correntes fundamentais. Para ele, assim como para Guérin e Marshall, haveria uma divisão fundamental entre anarquismo individualista, representado por autores como Stirner e Tucker, e o anarquismo social, representado por autores como Bakunin e Kropotkin.[10] Para McKay, haveria basicamente duas diferenças entre esses "dois tipos de anarquismo": aquelas relativas à estratégia — com os primeiros priorizando a educação e a propaganda e os segundos priorizando as intervenções econômicas e políticas na busca por uma revolução — e aquelas relativas à economia da uma possível sociedade futura baseada nos princípios libertários — com os primeiros defendendo um mercado anticapitalista e os segundos um socialismo sem mercado —; podendo ser definidas, dentro do anarquismo social, algumas correntes internas, como o mutualismo, coletivismo, comunismo e sindicalismo, todas definidas de acordo com Nettlau e Woodcock.[10] O autor ainda aponta outras correntes: o anarquismo verde, com foco nas preocupações ambientais; o anarcoprimitivismo, baseado na obra de John Zerzan; o anarquismo pacifista, definido da mesma forma que Woodcock, e identificado de certa maneira com o anarquismo religioso; o anarcafeminismo, definido pela prática de mulheres feministas que atuam entre os movimentos anarquistas para sustentar a bandeira das lutas de gênero; o anarquismo cultural, que prioriza a intervenção social por meio das artes, da música, da literatura, do teatro e da educação em relação às intervenções políticas e econômicas; e por fim o anarquismo sem adjetivos, definido a partir das propostas de um modelo flexível de organização anarquista.[10]

De modo geral, esses autores e muitos outros estudiosos do anarquismo, em suas tentativas de estabelecer as corrente anarquistas, utilizaram como critérios a distribuição dos produtos do trabalho em uma sociedade baseada em princípios libertários, subsidiando uma distinção entre coletivistas e comunistas; as estratégias de luta, sendo o caráter das intervenções anarquista o elemento que constituiria as bases para o estabelecimento das correntes anarcossindicalista, sindicalista revolucionária, cultural, pacífica ou violenta; e critérios de ordem político-filosófica, como as posições em relação ao espiritualismo ou à religião, além de critérios como a posição em relação às lutas ecológicas, de gênero e a defesa da liberdade individual.[11]

Críticas

Tais abordagens, porém, vêm sendo criticadas por novos estudiosos do anarquismo, que argumentam que essas tentativas de se estabelecer correntes do anarquismo foram forjadas por meio de uma "história vista de cima" e tomara em conta um conjunto de pensadores muito restrito, sendo que vários deles, tais como Godwin, Stirner, Tolstói, Tucker e Zerzan, não seriam anarquistas.[11] Esses autores sustentam que as discussões sobre a distribuição dos produtos do trabalho e critérios de ordem político-filosófica não dariam conta dos principais e mais relevantes debates anarquistas para fornecer as bases de uma definição das correntes anarquistas, já que não haveria grandes divergências entre os anarquistas nesses debates;[12] para eles, os debates de maior relevância e que historicamente dividiram os anarquistas foram aqueles acerca da estratégia, e que portanto, tais debates poderiam ser úteis para definir devidamente as diferenças entre os anarquistas, divididos entre anarquistas insurrecionários e anarquistas sociais ou de massas.[13]