Anarquismo no Brasil

Operários e anarquistas marcham portando bandeiras negras pela cidade de São Paulo, durante a greve geral de 1917.

O anarquismo no Brasil reúne uma série de experiências sociais relevantes na história do país, especialmente no período compreendido pela Primeira República. Sua origem remonta à imigração europeia ao Brasil, entre 1870 e 1914, quando os ideais anarquistas passaram a ser difundidos entre os operários brasileiros através de grupos de propaganda e periódicos, especialmente a partir da década de 1890.

As condições do operariado brasileiro e o sistema político da Primeira República, que dificultava a participação dos trabalhadores, fizeram com que o anarquismo rapidamente ganhasse força entre os operários. O sindicalismo revolucionário, concepção sindical então defendida pelos anarquistas do Brasil, exerceu grande influência no movimento operário, em especial nos congressos operários e nas greves do período. Os anarquistas também contribuíram com a criação de uma série de periódicos para a imprensa operária e fundaram diversas Escolas Modernas ao redor do país. O anarquismo deixou de ser hegemônico no movimento operário brasileiro a partir da década de 1920, quando se deu a criação do Partido Comunista do Brasil (PCB) e, principalmente, em razão da repressão promovida pelo governo de Artur Bernardes. O sindicalismo revolucionário entrou em crise no governo de Getúlio Vargas, quando os sindicatos passaram a ser controlados pelo Estado, resultando no declínio do anarquismo, agora sem espaços de inserção social.

Entre 1946 e 1964, os anarquistas concentraram seus esforços na construção de uma organização política anarquista e em ações culturais, apesar de manterem iniciativas no campo sindical. Com o golpe de 1964, a atividade anarquista tornou-se ainda mais limitada por conta da repressão. Apesar disso, houve certa atuação anarquista no movimento estudantil do período. Em 1977, no processo da abertura política, os libertários retomaram sua imprensa periódica, iniciando um processo de rearticulação do anarquismo no Brasil.

A partir da década de 1990, o processo de reorganização do anarquismo no Brasil culminou na criação de organizações influenciadas pelo especifismo da Federación Anarquista Uruguaya (FAU), em um processo que resultou, em 2012, na fundação da Coordenação Anarquista Brasileira (CAB). Os anarquistas, desde então, mantêm uma participação relevante, ainda que minoritária, em vários tipos de ações coletivas, como organizações sindicais, associações comunitárias e de bairro, mobilizações estudantis, movimentos de sem-teto e sem-terra e em ondas de protestos, como os de 2013 e as manifestações contra a Copa do Mundo de 2014.

Origens

A historiografia normalmente atribui as raízes do anarquismo no Brasil à imigração europeia. Esta se iniciou com a crise do sistema escravocrata no Brasil, na segunda metade do século XIX, quando as elites políticas convenceram-se de que a vinda de trabalhadores europeus traria vantagens à economia nacional. Intelectuais brasileiros uniram-se ao clamor pela vinda de imigrantes, salientando que teria efeito benéfico no "branqueamento" da população brasileira. Bastante estimulados pela propaganda do governo brasileiro, levas de europeus vieram ao Brasil entre 1870 e o começo da Primeira Guerra Mundial, em sua maioria italianos, portugueses e espanhóis.[1] Inicialmente, a maioria dos imigrantes era de origem rural e não possuía experiência política ou sindical anterior,[2] e com frequência tinha como destino inicial o trabalho agrícola, em especial as fazendas de café em São Paulo.[3] Durante a década de 1880, porém, o número de estabelecimentos industriais no Brasil triplicou, passando de pouco mais de 200 em 1881 para mais de 600 em 1889,[4] e muitos imigrantes se deslocaram aos nascentes centros industriais, após experiências desastrosas nas lavouras de café. Os centros industriais também receberam novas levas de imigrantes europeus, agora provenientes do meio urbano, tendo experiências prévias de organização sindical.[5][6]

Nesse contexto, o anarquismo passou a ser difundido entre os operários brasileiros a partir da década de 1890, através de grupos de propaganda e periódicos. Entre os pioneiros, estavam: Gli Schiavi Bianchi (1892), L’Asno Umano (1894) e L’Avvenire (1894-1895), publicados em São Paulo por grupos compostos majoritariamente por imigrantes italianos; O Despertar (1898) e O Protesto (1898-1900), publicados no Rio de Janeiro por grupos que reuniam brasileiros, espanhóis e portugueses.[7] Nessa última década do século XIX, a ação dos anarquistas foi guiada por grupos de propaganda principalmente informais, que publicavam periódicos, atuavam na educação de trabalhadores e participavam de associações diversas no meio operário.[8] Mesmo assim, já em 1892, anarquistas organizaram as primeiras atividades do Primeiro de Maio no Brasil e logo passaram a ser visados pela repressão. No Rio de Janeiro, a polícia relatou reuniões de estrangeiros que procuravam difundir as ideias libertárias entre os trabalhadores.[9] Em 1893, no jornal Correio Paulistano, órgão oficial do Partido Republicano Paulista (PRP), foi denunciada a entrada de imigrantes anarquistas no país, classificando-os como indivíduos perigosos, chefes de "terrível seita destruidora", que objetivavam "implantar a desordem e uma luta fratricida, incompatíveis com a abundância e a excelência dos nossos recursos de vida".[10] Em 1898, por ocasião das atividades do Primeiro de Maio, diversos anarquistas foram presos em São Paulo.[11]

Giovanni Rossi (à direita) e outros anarquistas italianos que embarcaram ao Brasil para constituir a Colônia Cecília.

Experiências anarquistas tiveram lugar no Brasil ainda na década de 1890, como a Colônia Cecília, empreendida pelo italiano Giovanni Rossi. Formada em 1890, na região de Palmeira, no Paraná, a Colônia Cecília foi uma comunidade rural experimental que buscou colocar em prática princípios libertários, como a realização do trabalho de forma coletiva, a organização de uma caixa de rendimento comunal e o incentivo ao amor livre.[12] A experiência teve seu fim em 1894, fustigada por setores da elite local e por problemas internos, como a pobreza material e a dificuldade, por parte de alguns colonos, de adaptar-se ao estilo de vida proposto pelos libertários.[12] A Colônia Cecília não deixou marcas profundas na história do movimento anarquista brasileiro, mas posteriormente alguns de seus ex-colonos passaram a militar em São Paulo, Paraná e Rio Grande do Sul.[13]